
Até pouco tempo atrás, tinha-se uma visão da Internet, refletida nos planos de mídia e nos planejamentos, como sendo uma mídia com forte penetração nas classes A e B e entre os formadores de opinião, desconsiderando-a frequentemente quando em campanhas voltadas ao público da classe C. Uma visão até certo ponto segregacionista e exclusivista que, com o passar do tempo acabou tendo a necessidade de ser revista.
Lembro até de uma propaganda do Brasil Online, pelos idos de 96, na qual um funcionário que ficava até tarde no trabalho descobria estupefato que o faxineiro tinha uma conta de e-mail. Nada de se estranhar em um país com tanta tradição em reforçar o abismo social, mesmo que com intenção de fazer piada.
O site da Info traz uma matéria interessante sobre o peso da classe C na Internet. O título, no entanto, não poderia ser mais equivocado: Arrombaram a Web. “Arrombar“, invadir à força, é termo extremamente negativo e reforça uma pá de preconceitos. A frase de abertura, “A classe C hoje manda e desmanda na Internet” é outra da qual discordo. Em um ambiente como a Internet, naturalmente democrático, abrangente e baseado em nichos, não há como haver classe que tenha domínio sobre as demais. A influência na Internet se dá horizontalmente, e não verticalmente. Há espaços para ambos os públicos explorarem. O restante da matéria, no entanto, traz informações bastante interessantes e vale ser lida.
Vamos a alguns fatos:
Apesar de, proporcionalmente, a penetração da classe C na Internet ser bastante inferior à das classes A e B, os números absolutos impressionam, afinal é um grupo que responde por quase metade da população brasileira. Até o final do ano, segundo projeção do IAB, praticamente 1 em cada 2 pessoas desta classe socioeconômica estará na Internet.
Números que já se refletem hoje na audiência do Orkut e MSN: são usuários leais às redes sociais. E, apesar do termo inclusão digital ser utilizado com tanta negatividade pela blogosfera, pode-se, sim, encarar estes números como oportunidade. Afinal, membros da classe C, historicamente, são mais adimplentes e têm desejos de consumo semelhantes às classes A e B, principalmente nos segmentos de eletrônicos e telefonia celular. É um grande nicho que merece ser mais explorado.
O gráfico a seguir ilustra bem. Em números absolutos, a população da classe C na Internet já é mais de duas vezes superior à população das classes AB como um todo!

Penetração na Internet, por classes socioeconômicas
Os motivos são vários para esta explosão de acesso. Cabem na conta os incentivos do governo através dos programas de distribuição de renda, a redução de vários impostos, a atual estabilidade econômica, a diminuição do custo da banda larga, as facilidades de crédito, para ficarmos nos mais evidentes.
Se, em números absolutos, a quantidade de computadores nas residências ainda não é suficiente para justificar esta penetração da Internet na classe C, outro dado merece ser levado em consideração. Não há agente de inclusão digital hoje maior que as lan houses. Presentes em qualquer localidade, com o mínimo de estrutura e cobrando preços acessíveis, foi ironicamente a iniciativa privada de microempreendedores o principal motor da popularização da Internet no Brasil.
Alguns dados interessantes sobre a classe C, que irão impressionar você:
- A classe C, em 2009, deverá representar R$ 532,8 bilhões no total do consumo nacional, estimado em 1,863 trilhão. Ou seja, a classe C responderá sozinha por quase 30% do consumo brasileiro até o final do ano.
- O e-commerce é um campo em expansão na classe C: em dezembro de 2007, a classe foi responsável por 35% das aquisições em lojas virtuais.
- Sobre compras online, 45% dos entrevistados da classe C já efetuaram compras pela internet a partir de casa; 39% já compraram do trabalho; 30% já usaram computador de amigos ou parentes e 18% já compraram a partir de lan houses.
- Entre os bens mais comprados, estão equipamentos eletrônicos, como câmeras, telefones celulares e aparelhos de DVD, eletrodomésticos e produtos de utilidade doméstica.
- A classe C, em números absolutos, é a que contém o maior número de aparelhos celulares.
- 5% dos usuários de telefone celular na classe C acessam a Internet pelo aparelho. Na classe média, o índice é de 10%. Diferença mínima, se considerarmos números absolutos. Basta lembrar que a classe AB responde por apenas 19% dos usuários de celulares no Brasil.
Realmente, já passou da hora de encarar a classe C como uma grande força econômica na Internet. E pensar que, pouco mais de 10 anos atrás, o faxineiro com e-mail era elemento de surpresa em comercial. Hoje, não se surpreenda se ele usar mais a Internet móvel do que você.

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